sexta-feira, 26 de junho de 2009

Não, não vale a pena


















Muitas vezes da vontade de matar alguém, isso é normal (desde que você não realize essa vontade). Mas daí você para e pensa, e pensa e pensa, e vê que aquela pessoa é tão miserável que merece mesmo é seu apoio. Foi assim que o pistoleiro da crônica a seguir pensou...


Moacyr Scliar

Nós, o pistoleiro, não devemos ter piedade

Nós estamos numa pequena cidade do Texas, em 1880.

Nós somos um temível pistoleiro. Nós estamos num bar, tomamos uísque a pequenos goles. Nós temos um olhar soturno . Passado terrível. Muitas mortes. Remorsos.

A porta se abre. Entra um mejicano chamado Alonso.

Dirige-se a nós, o pistoleiro, com desrespeito. Chama-nos de gringo, ri alto, faz tilintar as esporas. Nós continuamos bebendo o uísque a pequenos goles. O mejicano dá-nos uma bofetada. Quer morrer, este Alonso.

Nós não queríamos matar mais ninguém. Abriremos uma exceção para Alonso. Cão mejicano.

Combinamos o encontro fatídico para o dia seguinte, ao raiar do sol.

Alonso dá-nos mais uma bofetada e vai-se. Ficamos pensativo, bebendo o uísque a pequenos goles.

Depois atiramos uma moeda de ouro sobre o balcão e saímos.

Caminhamos lentamente, arrastando os pés, até nosso hotel.

A população olha-nos. Sabem que somos um temível pistoleiro. Pobre mejicano, pobre Alonso. Amanhã.

Entramos no hotel, subimos ao quarto, deitamo-nos sem ao menos tirar as botas. Ficamos a olhar o teto, a fumar, a pensar.

Fumamos muito. Pensamos pouco: muitas mortes. Remorsos.

E já é manhã. Levantamo-nos. Colocamos cinturão.

Examinamos revólveres. Inspeção de rotina, completada em poucos minutos. Descemos.

A rua está deserta, mas por trás das cortinas corridas adivinhamos a população. O vento sopra, levantando turbilhões de poeira. Mesmo vento, mesmo oeste. Rotina. Alonso já nos espera. Quer morrer, este mejicano. Está rindo. É manhã. Amanhã não rirá.

Colocamo-nos frente a ele. Um pistoleiro de olhar soturno, passado terrível, muitas mortes.

Vemos um mejicano. Pobre diabo. Comia tortillas, já não comerá.

Tem mulher e cinco filhos pelo que informaram, um pedaço de terra e uma guitarra. A mulher e os filhos enterrarão o cadáver, fecharão a palhoça e seguirão para Vera Cruz, as trouxas de roupas à cabeça.

A mulher ficará tuberculosa. A filha mais velha será prostituta. Um filho ladrão. Outro morrerá. E outro morrerá. E outro morrerá.

Os olhos se nos turvam. Remorsos. Uma lágrima cai sobre o chão poeirento. O mejicano já não ri. Aguarda o momento de ser morto.

Já é manhã, mas ainda não o executamos. Pobre Alonso. A única exceção.

Uma bofetada, outra bofetada. Ninguém deu duas bofetadas num pistoleiro. Não comerá mais tortillas.

Os dentes podres daquele homem. O olhar aterrorizado.

Nosso olhar turvando: novas lágrimas, lágrimas frescas.

Não conseguimos sacar nossos revólveres, como de rotina.

E assim vamos vendo Alonso puxar sua arma, vamos ouvindo o disparo, podemos até imaginar a bala vindo ao nosso coração, sentimos dor intensa, lento tombamos.

Morremos, diante do riso de Alonso, o mejicano.

Folha de S. Paulo, 1/7/1973


Thiago 007



1 comentários:

Unknown 26 de junho de 2009 às 11:45  

Somos todos a mesma podrera!
"Homem miserável que eu sou! Quem me resgatará do corpo que é submetido a esta morte? " - Rom. 7:24

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